INSÔNIA
Ele passeava sem rumo, simples, sentindo o chão sob seus pés descalços, toda a textura, o relevo. Vez por outra, uma brisa desarrumava-lhe os cabelos negros. Naquele dia, ele acordou e decidiu-se por uma vida adormecida. Queria verdadeiramente dormir até morrer, não como um suicida, simplesmente a opção mesma de viver a sonhar. Apenas ser e estar acordado já não tinha mais sentido, qualquer que fosse. Para ele, tudo o que precisava saber, sentir, viver já se consumara. Agora era hora de dormir, para por os sonhos em prática. Ou talvez fosse o contrário, quem sabe?
Enquanto suas pernas pensavam, sua cabeça se esvaziava, e foi seguindo assim, até que se viu adormecido, imóvel, ouvindo a própria respiração, o ritmo cardíaco, o sangue circulando por veias e artérias, os pelos do corpo arrepiando-se, ao mesmo tempo em percebia-se em pleno movimento aleatório, livre dos caminhos caminhados.
Pessoas começaram a cruzar-lhe o caminho, aliás o caminho começou a cruzar com as pessoas, tudo ao mesmo tempo, como numa irrealidade concreta, uma dúvida certa. A possibilidade de ser escolhido como uma escolha e ser esquecido tacitamente. Sem direção ou sentido, apenas a sensação do que se lhe apresentava ou desviava, nada além de nada.
Diálogos possíveis, conheceres e reconheceres, imagens e sons inéditos, tudo cabe, tudo se faz imune, impune, e o lume também esquece, parte da parte que não se sabe. Durante instantes imensuráveis pode vivenciar momentos aparentemente previstos. Mas o que realmente importa é a percepção de que tudo se encaixa a uma nova forma de olhar aquilo que é e não é, sem juízo de valores.
Pensou então sobre o que já disse o poeta, “viver é melhor que sonhar”; mas sonhar não é também parte do viver? A própria questão em si já se faz resposta, ao mesmo tempo em que renova e desfaz a dúvida. A consciência de si já traz em seu bojo própria desconsciência.
E nada mais há que se dizer. O cabo do corpo é o porto. Está morto.
sexta-feira, 21 de outubro de 2016
FOTOGRAFIAS
II – O PÉ E O CALÇADO
1 - Os caminhos se nos apresentam como possibilidades de novos encontros. Há os já conhecidos, cujos passos previamente estudados os percorrem sem sustos. Mas há também aqueles que se fazem na própria caminhada, e é deles (e neles), que nos completamos.
Seja como for, é a mente que constrói o percurso, em passadas ritmadas pelas necessidades que se impõem. Cada pé requer seu calçado que, incontinente, protege, impele, afirma, avança, comporta e conforta, autônomos, os desvios inesperados, junto a outros tantos também calçantes e calçados, num anonimato radicalmente plural.
A fôrma e a forma, a matéria e o sonho, o piso que os suporta, todo o caminho desejado, concluindo o destino que se propõe a cada pegada.
Deveras, cada ente na busca de seu caminho, movendo-se em distâncias, ruas e vielas mapeadas e assoladas pelos pés distraídos de quem às vezes passeia desvairado, mas consciente de seu cabo. O pensamento lhe preenche o tempo. Sua vocação é pensar a intuição existencial, sua própria condição. E o que lhe prende é a matéria em movimento, que gera o segmento intencionalmente.
As pernas já cansadas, os pés insuportavelmente presos a um sapato de couro preto, suando, apertados e ansiosos pelo descanso merecido. Enquanto se caminha e encaminha, os sentidos concentram-se na necessidade de deixar os pés respirarem. Nada mais importa no instante. Seus pensamentos são pura alegoria de uma necessidade que lhe consume, independente. A busca por um banco de praça faz- obsessiva e os passos já não são controlados ou guiados pela razão. Apenas pés, calos ambulantes, vagando sem direção, mas com um profundo sentimento de impotência ante a impossibilidade de se descalçarem autonomamente, embora exigentes num grito surdo.
Há um compromisso social como impedimento de sua liberdade individual, há a vergonha e o medo de não ser compreendido, a necessidade de se fazer pertencente, pertencido, aceitável... Os pés acabam por revelar, apesar de sua esquecida importância na totalidade do ser, a mediocridade inerente à condição social de ser no mundo.
2 - A escolha do calçado (sapato, sandália, bota, chinelo, pantufa, rasteirinha, melissa, krok, salto alto, salto baixo, carrapeta, galocha ou canoinha de pés - como dizem os índios norte-americanos - e há muito mais estilos e formas de abrigo podal), segue critérios alheios à sua vontade/necessidade (a do pé): é o gosto do ser social, do qual é a base, o fator preponderante à essa decisão. Aspectos como a estética, o conforto, a durabilidade e a moda são preponderantes e levados em consideração quando da escolha do calçado. Há ainda o fator cor, que está diretamente ligado à moda do momento e, por vezes simultaneamente, outras, secundariamente, ao gosto pessoal do indivíduo. Mas, para a maioria da população (que é de baixa renda em nosso mundo), o que importa mesmo é a relação custo/benefício ou, em outras palavras, o preço que se paga pela função, ou, “sapateidade” desse objeto.
Recentemente, uma pesquisa norte-americana (claro!) revelou uma nova relação entre os humanos e os calçados, mais ligada à subjetividade, ao prazer e à necessidade de possuir, fazer-se notar no mundo através do acúmulo de bens/grifes, e não pelas ações e pensamentos constituintes do ser. Verificou-se que há um número crescente de pessoas, em sua maioria mulheres, que possuem calçados às centenas, se não milhares, e fazem disso uma necessidade vital, como respirar, comer, amar. Pobres seres/teres humanos. “E assim caminha a humanidade...”
1 - Os caminhos se nos apresentam como possibilidades de novos encontros. Há os já conhecidos, cujos passos previamente estudados os percorrem sem sustos. Mas há também aqueles que se fazem na própria caminhada, e é deles (e neles), que nos completamos.
Seja como for, é a mente que constrói o percurso, em passadas ritmadas pelas necessidades que se impõem. Cada pé requer seu calçado que, incontinente, protege, impele, afirma, avança, comporta e conforta, autônomos, os desvios inesperados, junto a outros tantos também calçantes e calçados, num anonimato radicalmente plural.
A fôrma e a forma, a matéria e o sonho, o piso que os suporta, todo o caminho desejado, concluindo o destino que se propõe a cada pegada.
Deveras, cada ente na busca de seu caminho, movendo-se em distâncias, ruas e vielas mapeadas e assoladas pelos pés distraídos de quem às vezes passeia desvairado, mas consciente de seu cabo. O pensamento lhe preenche o tempo. Sua vocação é pensar a intuição existencial, sua própria condição. E o que lhe prende é a matéria em movimento, que gera o segmento intencionalmente.
As pernas já cansadas, os pés insuportavelmente presos a um sapato de couro preto, suando, apertados e ansiosos pelo descanso merecido. Enquanto se caminha e encaminha, os sentidos concentram-se na necessidade de deixar os pés respirarem. Nada mais importa no instante. Seus pensamentos são pura alegoria de uma necessidade que lhe consume, independente. A busca por um banco de praça faz- obsessiva e os passos já não são controlados ou guiados pela razão. Apenas pés, calos ambulantes, vagando sem direção, mas com um profundo sentimento de impotência ante a impossibilidade de se descalçarem autonomamente, embora exigentes num grito surdo.
Há um compromisso social como impedimento de sua liberdade individual, há a vergonha e o medo de não ser compreendido, a necessidade de se fazer pertencente, pertencido, aceitável... Os pés acabam por revelar, apesar de sua esquecida importância na totalidade do ser, a mediocridade inerente à condição social de ser no mundo.
2 - A escolha do calçado (sapato, sandália, bota, chinelo, pantufa, rasteirinha, melissa, krok, salto alto, salto baixo, carrapeta, galocha ou canoinha de pés - como dizem os índios norte-americanos - e há muito mais estilos e formas de abrigo podal), segue critérios alheios à sua vontade/necessidade (a do pé): é o gosto do ser social, do qual é a base, o fator preponderante à essa decisão. Aspectos como a estética, o conforto, a durabilidade e a moda são preponderantes e levados em consideração quando da escolha do calçado. Há ainda o fator cor, que está diretamente ligado à moda do momento e, por vezes simultaneamente, outras, secundariamente, ao gosto pessoal do indivíduo. Mas, para a maioria da população (que é de baixa renda em nosso mundo), o que importa mesmo é a relação custo/benefício ou, em outras palavras, o preço que se paga pela função, ou, “sapateidade” desse objeto.
Recentemente, uma pesquisa norte-americana (claro!) revelou uma nova relação entre os humanos e os calçados, mais ligada à subjetividade, ao prazer e à necessidade de possuir, fazer-se notar no mundo através do acúmulo de bens/grifes, e não pelas ações e pensamentos constituintes do ser. Verificou-se que há um número crescente de pessoas, em sua maioria mulheres, que possuem calçados às centenas, se não milhares, e fazem disso uma necessidade vital, como respirar, comer, amar. Pobres seres/teres humanos. “E assim caminha a humanidade...”
FOTOGRAFIAS
FOTOGRAFIAS
I – MENDIGO
Há uma perfeita lógica em não ser o que se é e, em sendo, deixamos de sê-lo para não ser o que sendo queríamos ser...
Penso que por muitos séculos os humanos foram acumulando experiências e vontades escondidas, saudades e projetos impossíveis, em busca de uma auto-afirmação... Por outro lado, a eternidade sempre esteve ausente, já que o termo da vida se impõe, e não há aquele que não o conheça, que no fundo, não o tema e ao mesmo tempo, o deseje, na tentativa de encontrar respostas para a própria inexistência. O único eterno é a morte.
Vejo nos transeuntes olhares vagos, esquecidos, sem busca... Percebo-me semelhante, mas tento a fuga do comum, invisto em palavras para que possa ver meu reflexo nu. Inebriado com a possibilidade das discrepâncias, vejo-me aqui, sentado nesse banco de praça, a observar a condição humana, sem piedade, sem amor ou ódio, sem juízo de valores, sem medo.
Aquilo estava à minha frente, sentado na calçada, degustando uma fruta, indiferente aos que passavam, aos olhares assustados, acusadores, penalizados, que lhe eram dirigidos... suas roupas sujas, rasgadas, descalço, cabelo e barba sujos e embaraçados, aquele cheiro de urina amanhecida... não dava pra ver se tinha dentes, mas pelo jeito como comia voraz e saborosamente, isso era o menos importante...
Sua presença começou a incomodar, alguns chegaram perto dele e tentaram tirá-lo de lá ameaçando-o; o dono do bar em frente gritou de lá de dentro para que saísse ou iria chamar a polícia. Indiferente aos apelos, dia trabalho. Sua altivez, sua serenidade e passividade me afetaram.
Corto minha visão para o outro lado da praça, uma banca de jornal com várias pessoas paradas à sua frente, lendo as manchetes dos jornais expostos, tecendo comentários sobre alguma notícia, alheias à sua própria condição miserável, carentes de tempo para refletirem sobre a vida que levam ou a que são levadas. Esquecem-se do repouso devido e buscam frenéticas a última gota de sentimento nas vitrines imaginárias e voluptuosas que se lhes aparecem, enquanto o tempo vai caminhando e devorando suas esperanças.
Somos todos mendigos? Talvez... se não, então como é possível essa avalanche de sentimentos indizíveis, que nos transformam em maltrapilhos do desejo, na beira das calçadas, encostados na parede da saudade e da inércia...?
Já desfeito de sua sonolência, o mendigo levanta-se e vai pedir um cigarro a alguém que está parado no ponto de ônibus em frente. Afasta-se lentamente soltando fumaça e desaparece em meio ao formigueiro que já se forma no terminal de ônibus perto dali.
I – MENDIGO
Há uma perfeita lógica em não ser o que se é e, em sendo, deixamos de sê-lo para não ser o que sendo queríamos ser...
Penso que por muitos séculos os humanos foram acumulando experiências e vontades escondidas, saudades e projetos impossíveis, em busca de uma auto-afirmação... Por outro lado, a eternidade sempre esteve ausente, já que o termo da vida se impõe, e não há aquele que não o conheça, que no fundo, não o tema e ao mesmo tempo, o deseje, na tentativa de encontrar respostas para a própria inexistência. O único eterno é a morte.
Vejo nos transeuntes olhares vagos, esquecidos, sem busca... Percebo-me semelhante, mas tento a fuga do comum, invisto em palavras para que possa ver meu reflexo nu. Inebriado com a possibilidade das discrepâncias, vejo-me aqui, sentado nesse banco de praça, a observar a condição humana, sem piedade, sem amor ou ódio, sem juízo de valores, sem medo.
Aquilo estava à minha frente, sentado na calçada, degustando uma fruta, indiferente aos que passavam, aos olhares assustados, acusadores, penalizados, que lhe eram dirigidos... suas roupas sujas, rasgadas, descalço, cabelo e barba sujos e embaraçados, aquele cheiro de urina amanhecida... não dava pra ver se tinha dentes, mas pelo jeito como comia voraz e saborosamente, isso era o menos importante...
Sua presença começou a incomodar, alguns chegaram perto dele e tentaram tirá-lo de lá ameaçando-o; o dono do bar em frente gritou de lá de dentro para que saísse ou iria chamar a polícia. Indiferente aos apelos, dia trabalho. Sua altivez, sua serenidade e passividade me afetaram.
Corto minha visão para o outro lado da praça, uma banca de jornal com várias pessoas paradas à sua frente, lendo as manchetes dos jornais expostos, tecendo comentários sobre alguma notícia, alheias à sua própria condição miserável, carentes de tempo para refletirem sobre a vida que levam ou a que são levadas. Esquecem-se do repouso devido e buscam frenéticas a última gota de sentimento nas vitrines imaginárias e voluptuosas que se lhes aparecem, enquanto o tempo vai caminhando e devorando suas esperanças.
Somos todos mendigos? Talvez... se não, então como é possível essa avalanche de sentimentos indizíveis, que nos transformam em maltrapilhos do desejo, na beira das calçadas, encostados na parede da saudade e da inércia...?
Já desfeito de sua sonolência, o mendigo levanta-se e vai pedir um cigarro a alguém que está parado no ponto de ônibus em frente. Afasta-se lentamente soltando fumaça e desaparece em meio ao formigueiro que já se forma no terminal de ônibus perto dali.
quarta-feira, 6 de maio de 2015
HONOMEN
I
Em nome do nome
o homem sucumbe.
Denominados os valores,
os conceitos concluem
o nome do homem.
II
Sonhos são inomináveis,
homens sonham nomes,
interagem enquanto sobrenomes,
imagens sem reflexo,
despercebidos em pronomes.
III
O espelho oculta
homens enormes.
Em nome dos homens,
o nome Homem reflete
homens sem nome.
marco 11.04.95
I
Em nome do nome
o homem sucumbe.
Denominados os valores,
os conceitos concluem
o nome do homem.
II
Sonhos são inomináveis,
homens sonham nomes,
interagem enquanto sobrenomes,
imagens sem reflexo,
despercebidos em pronomes.
III
O espelho oculta
homens enormes.
Em nome dos homens,
o nome Homem reflete
homens sem nome.
marco 11.04.95
É TARDE DO OUTRO LADO
É tarde
do outro lado.
Minha língua não te entende.
Mas sei do teu sentimento.
Aquele sorriso
brilha como o meu.
Minha dor
é a tua dor.
Nossa distância, pequena.
Mas não nos conhecemos.
Alguém pensa em mim.
Eu penso em você.
Pensamos todos no infinito,
tornamo-nos cúmplices.
Ainda que desconhecidos.
Marco
É tarde
do outro lado.
Minha língua não te entende.
Mas sei do teu sentimento.
Aquele sorriso
brilha como o meu.
Minha dor
é a tua dor.
Nossa distância, pequena.
Mas não nos conhecemos.
Alguém pensa em mim.
Eu penso em você.
Pensamos todos no infinito,
tornamo-nos cúmplices.
Ainda que desconhecidos.
Marco
INSÔNIA
Ele passeava sem rumo, simples, sentindo o chão sob seus pés descalços, toda a textura, o relevo veloz... Vez por outra, uma brisa desarrumava-lhe os cabelos negros. Naquele dia ele acordou e decidiu-se por uma vida adormecida. Queria verdadeiramente dormir até morrer, não como forma de suicídio, simplesmente a opção mesma de viver a sonhar. Apenas ser e estar acordado já não tinha mais sentido, qualquer que fosse. Para ele, tudo o que precisava saber, sentir, viver já se consumara. Agora era hora de dormir, para por os sonhos em prática. Ou talvez fosse o contrário, quem sabe?
Enquanto suas pernas pensavam, sua cabeça se esvaziava, e foi seguindo assim, até que se viu adormecido, imóvel, ouvindo a própria respiração, o ritmo cardíaco, o sangue circulando por veias e artérias, os pelos do corpo arrepiando-se, ao mesmo tempo em percebia-se em pleno movimento aleatório, livre dos caminhos caminhados.
Pessoas começaram a cruzar-lhe o caminho, ou talvez o caminho começasse a cruzar as pessoas, tudo ao mesmo tempo, como numa irrealidade concreta, uma dúvida incerta. A possibilidade de ser escolhido como uma escolha e ser esquecido tacitamente. Sem direção ou sentido, apenas a sensação do que se lhe apresentava ou desviava, nada além de nada.
Diálogos possíveis, conheceres e reconheceres, imagens e sons inéditos, tudo cabe, tudo se faz imune, impune, e o lume também enegrece, parte da parte que não se sabe. Durante instantes imensuráveis pode vivenciar momentos aparentemente previstos. Mas o que realmente importa é a percepção de que tudo se encaixa a uma nova forma de olhar aquilo que é e não é, sem juízos, sem valores.
Pensou então sobre o que já disse o poeta, “viver é melhor que sonhar”; mas sonhar não é também parte do viver? A própria questão em si já se faz resposta, ao mesmo tempo em que desfaz e renova a dúvida. A consciência de si já traz em seu bojo a própria inconsistência.
E nada mais há que se dizer. O cabo do corpo é o porto.
Ele passeava sem rumo, simples, sentindo o chão sob seus pés descalços, toda a textura, o relevo veloz... Vez por outra, uma brisa desarrumava-lhe os cabelos negros. Naquele dia ele acordou e decidiu-se por uma vida adormecida. Queria verdadeiramente dormir até morrer, não como forma de suicídio, simplesmente a opção mesma de viver a sonhar. Apenas ser e estar acordado já não tinha mais sentido, qualquer que fosse. Para ele, tudo o que precisava saber, sentir, viver já se consumara. Agora era hora de dormir, para por os sonhos em prática. Ou talvez fosse o contrário, quem sabe?
Enquanto suas pernas pensavam, sua cabeça se esvaziava, e foi seguindo assim, até que se viu adormecido, imóvel, ouvindo a própria respiração, o ritmo cardíaco, o sangue circulando por veias e artérias, os pelos do corpo arrepiando-se, ao mesmo tempo em percebia-se em pleno movimento aleatório, livre dos caminhos caminhados.
Pessoas começaram a cruzar-lhe o caminho, ou talvez o caminho começasse a cruzar as pessoas, tudo ao mesmo tempo, como numa irrealidade concreta, uma dúvida incerta. A possibilidade de ser escolhido como uma escolha e ser esquecido tacitamente. Sem direção ou sentido, apenas a sensação do que se lhe apresentava ou desviava, nada além de nada.
Diálogos possíveis, conheceres e reconheceres, imagens e sons inéditos, tudo cabe, tudo se faz imune, impune, e o lume também enegrece, parte da parte que não se sabe. Durante instantes imensuráveis pode vivenciar momentos aparentemente previstos. Mas o que realmente importa é a percepção de que tudo se encaixa a uma nova forma de olhar aquilo que é e não é, sem juízos, sem valores.
Pensou então sobre o que já disse o poeta, “viver é melhor que sonhar”; mas sonhar não é também parte do viver? A própria questão em si já se faz resposta, ao mesmo tempo em que desfaz e renova a dúvida. A consciência de si já traz em seu bojo a própria inconsistência.
E nada mais há que se dizer. O cabo do corpo é o porto.
segunda-feira, 15 de setembro de 2014
IMAGENS
I
Imagens que se sucedem
Palavras como fundo
Palavras não são ditas
Palavras não são escutadas
Imagens controlam palavras.
II
Sonhos
Imagens de dezessete polegadas
Palavras em estéreo
Diálogo improvável
Respiro o suspiro
Trago o escarro
No fim do sono
Amanhece o comercial.
III
Negação do impossível
Impossibilidade do não
Neon fumaça rua
Fundo das palavras
Insights em imagens
Bobagens!
IV
Velocidade
( ZOOM )
Viu?
marco, 20.11.93
quarta-feira, 20 de agosto de 2014
Ora completo, ora vazio,
ora perplexo, ora vadio.
São tantos os modos, e tanto o desvio,
Que me descontrolo, e à mão não confio
Processos e normas, nem mesmo o pavio
Da bomba motora. O corpo esguio
Comporta o sonho, tecendo o fio
Do pano grosseiro, que veste macio
Meu corpo em segredo. Deságua no rio
O sonho profundo, o tempo tardio.
Navego as águas, tamanho é o navio,
Sem vela, sem remo, sem norte: fez-se o trio
Da sorte sem corte da fêmea no cio,
E o sexo reclama; por ele procrio,
Perpétuo destino, a vida recrio...
Marco, 18/09/2011
EM QUE VIAS...
I
Vias repletas de saudades,
Vias completas e vazias,
Vias, à noite, a lua nascente,
Vias, mas não sabias
Que o medo colore o desejo
Com matizes proibidas...
Vias, vielas, guias,
Caminhos que se concluem,
Olhares vazios e escassos...
Vias que o sofrimento
É uma via?
Havia o olhar que via,
E previa feito guia o trajeto,
Destinos trafegantes e incertos,
Vozes sem timbre,
Atos indeléveis,
Imagens inacabadas de sonhos impensados...
II
O oco da boca,
O toco, a toca,
O foco, a foca,
O troco, a troca.
A intenção que pretende explicar
Aquilo que se esconde.
A invenção que pretende superar
Aquilo que não se responde.
III
Existir,
Independente de portar, ter, haver.
Ser e estar no mundo,
Com o mundo,
Para o mundo,
Este corpo etéreo e profundo,
Conexo, anexo, perplexo,
Reflexo das imagens recriadas pelo instinto
Motor e móvel do desejo inerente
Ao próprio movimento gratuito.
Desistir,
Incontinente
Displicente
Indecente
Formalmente.
Apenas abrir mão do imaginário
Que, previamente estabelecido como totalidade,
Não se presta aos processos construtivos de ser.
IV
Eis a jornada por cumprir,
A que não escolhi e tampouco esquecerei,
E eu, que via a via que havia,
Corrompi meus passos,
Confundi meus espaços,
Concentrei em meus braços,
Abracei-me em abraços,.
E nesses ninhos,
Meu semblante sorriu incontinente,
E o corpo contínuo de minha gente
Vibrou,
Dormiu,
Amou,
Sentiu,
Chorou,
Ruiu,
Calou...
Depois, refletidamente,
Esqueci de meu desejo mais profundo,
Assumindo a humana idade
Da humanidade anacrônica...
Marco, 18/09/2011
segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012
Hoje
Hoje
e só hoje,
resolvi que não sou mais eu,
e tudo que ora é meu
doravante será teu,
incluindo meu coração,
minha oração diária,
tuas glândulas mamárias
e aquele olhar despedido...
Hoje,
não amanhã
nem ontem,
só hoje,
desisti de ser teu eu
e o que era teu
não é mais,
e o que à vera pertencesse
àquele de quem esquecestes,
doravante é desperdicio
e des-será um último vício...
Marco, 27 de fevererio de 2012.
e só hoje,
resolvi que não sou mais eu,
e tudo que ora é meu
doravante será teu,
incluindo meu coração,
minha oração diária,
tuas glândulas mamárias
e aquele olhar despedido...
Hoje,
não amanhã
nem ontem,
só hoje,
desisti de ser teu eu
e o que era teu
não é mais,
e o que à vera pertencesse
àquele de quem esquecestes,
doravante é desperdicio
e des-será um último vício...
Marco, 27 de fevererio de 2012.
terça-feira, 31 de maio de 2011
Os Pês
Ainda é tarde?
Depois do tempo
Resta o que não se diz,
Intenção velada
Ante o olhar escondido...
Nosso instinto se refaz
Eternamente atual.
Marco
Outono/2011
Depois do tempo
Resta o que não se diz,
Intenção velada
Ante o olhar escondido...
Nosso instinto se refaz
Eternamente atual.
Marco
Outono/2011
quinta-feira, 26 de agosto de 2010
ESTÁVAMOS ASSIM
Estávamos assim, parados,
obras aos pedaços,
vítimas do tempo:
memória relâmpago,
olhar chuvoso.
No ar, a transparência
de quem acaba de nascer.
O pulso,
esfacelado e sem calor.
Idéias perambulavam pela mente,
num itinerário absurdo do desejo.
Estávamos assim
e assim permanecemos longamente,
feito sementes,
distantes...
marco, 11.12.92.
obras aos pedaços,
vítimas do tempo:
memória relâmpago,
olhar chuvoso.
No ar, a transparência
de quem acaba de nascer.
O pulso,
esfacelado e sem calor.
Idéias perambulavam pela mente,
num itinerário absurdo do desejo.
Estávamos assim
e assim permanecemos longamente,
feito sementes,
distantes...
marco, 11.12.92.
ONDE
A pálpebra quebra-
da.
Horizonte infinito
sem sol.
Como num filme
quadro
a
quadro
As imagens congeladas
gélidas
angelicais
mudas.
Iceberg de sonhos,
ou f u m a ç a de cig a r r o
sem filtro.
Esqueço.
E tudo não passa de tudo.
Olho pro lado
ONDE?
Olho pro olho que olha
lágrimas s
u
s
p e
n
s
a
s num a
b
i
s
m
o
Espelho.
Marco, 15 de fevereiro de 92
da.
Horizonte infinito
sem sol.
Como num filme
quadro
a
quadro
As imagens congeladas
gélidas
angelicais
mudas.
Iceberg de sonhos,
ou f u m a ç a de cig a r r o
sem filtro.
Esqueço.
E tudo não passa de tudo.
Olho pro lado
ONDE?
Olho pro olho que olha
lágrimas s
u
s
p e
n
s
a
s num a
b
i
s
m
o
Espelho.
Marco, 15 de fevereiro de 92
BEIJO
Beijo
e já não sei mais
de teu valor.
Antes, soubera,
(na espera...)
o teu sabor!
marco, 14 de abril de 93
e já não sei mais
de teu valor.
Antes, soubera,
(na espera...)
o teu sabor!
marco, 14 de abril de 93
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